salvador allende, morto pelos fascistas e pela cia, em 11 de setembro de 1973.

the nature of gothic - john ruskin - kelmscott press
os últimos anos da vida de william morris foram dedicados à impressão e edição de livros. mais uma vez fiel às suas ideias sobre a sociedade industrializada, morris considerava que a mecanização dos processos de impressão não tinham obrigatoriamente que ser deficitários ao nivel dos seus materiais e da sua qualidade visual, como eram as edições da época. é assim que funda a kelmscott press em 1891, onde, mais do que interessado em editar determinados textos, tenta atribuir aos livros e aos seus acabamentos a qualidade que já tinham tido no passado, principalmente, para morris, na idade medieval. as edições da kelmscott são pensadas ao detalhe, nada passa ao lado de morris; do papel à tinta, ao jogo entre a mancha e o espaço. morris ilustra profundamente os livros com motivos medievais e chega a criar tipos próprios para as suas edições. william morris morre em 1896 e a kelmscott acaba em 98, editando, nos seus 7 anos de vida, 53 edições num total de 18000 cópias, que já eram peças de colecção antes de chegar às mãos dos seus compradores. tendo como referência a kelmscott e a qualidade das suas edições, nascem no inicio do século XX inúmeras editoras por toda a a europa.
há sempre aquelas histórias mal contadas. dessas todas, a primeira, a maior, é sobre o papel dado aos mouros na formação de portugal. mas não é dessa que vou falar, vou falar da última, que diga-se, tem mais de um século em cima, mas ainda não tinha dado por ela.
o personagem central desta história chamava-se william morris. designer, escritor, editor, entre mil e outras ocupações. morris viveu e desenvolveu o seu trabalho na segunda metade do século XIX e é por muitos considerado o percursor do design como hoje o conhecemos. criador do movimento inglês arts & crafts, que inspirado nos ideais de ruskin, surge como uma resposta ao abandono dos antigos oficios e à crescente industrialização.

para morris, socialista e medievalista convicto, a industrialização tinha acabado com os objectos artisticos de uso comum, anteriormente realizados por artesãos, que controlavam todo o processo de fabrico - assegurando-lhes uma grande qualidade - trocando-os por produtos de péssima qualidade executados em série por um sem número de operários sem qualificação, a quem era apenas pedido o repetir sem fim de um movimento ou de um esforço, sem qualquer visão global sobre o objecto. é com estes ideais que morris se lança na criação das suas oficinas, para a criação de moveis, papeis de parede, cadeiras e um sem número de outros objectos que rapidamente alcançam enorme sucesso.
chegamos agora à parte mal contada, aquela versão que durante anos ouvi nas minhas aulas de história de arte e que descreviam o ideial de morris como "utópico". se é um facto que morris pretendia provar que se podiam criar objectos de indole artistica por processos artesanais e com preços competitivos para as classes mais baixas, não havendo necessidade do recurso aos produtos industriais de má qualidade - ponto em que o desenrolar dos acontecimentos, na verdade, não lhe deu razão; os seus objectos seriam famosos entre as classes mais abastadas e muito dificilmente um operário teria dinheiro para comprar uma cadeira sua.
acontece que por outro lado, a revisão dos processos de trabalho que advocava em contraste com os usados no resto da industria, estão longe de ser utópicos e foram largamente atingidos nas suas oficinas; um operário de morris era um artista, um artesão que estava a par de toda a produção, do planeamento à execução, era um operário que pensava, debatia e discutia, não se limitiva a uma única tarefa, saltava de objecto em objecto e navegava pelas mais diferentes técnicas.
esta visão do homem, da qualificação do seu trabalho e do valor da sua experiência tem pouco de utópico. basta olhar para os objectos criados e a sua enorme qualidade, basta ver a forma como o pensamento de morris ainda hoje faz eco na nossa sociedade.
utópico? haa! já sei! era socialista.