Apr 27, 2005

japão ( 3 ).

a incapacidade de achar aquela situação normal, misturava-se com a certeza que já tinha visto aquilo em algum filme. eu, o cordinhas e um japonês, mais três enormes mochilas na caixa traseira de um minúsculo triciclo motorizado, à j. tinha calhado viajar na parte da frente coberta, junto do pequeno velho que nos dava boleia. a chuva era tão densa que depois de ter percorrido vinte metros tinha a certeza absoluta que nada iria ficar seco na mochila e que a capa era uma peça a mais que tinha sobre o corpo - lembrei-me como o nosso condutor ao sair de casa olhou pela porta a medir a chuva que caia da noite e retirou duas peças de roupa do corpo.
o caminho era íngreme, estava enlameado e não se conseguia ver nada, apenas três ou quatro metros à frente do farol do motociclo. depois de uma rápida viagem de cinco minutos a mota parou, o caminho, para ela, acabava ali, agora seriam mais 3 km a descer a pé até à praia, diziam os dois num inglês dificílimo. mas 3 km por onde? mal conseguia ver a cara deles quanto mais descobrir um caminho que a nossa lanterna não acusava..."this way" "this way" dizia o mais novo enquanto descia as primeiras lajes que surgiam por debaixo da vegetação que prendia com o braço. mal iniciamos a marcha a a j. caiu. a impossibilidade do empreendimento saltava-nos dos olhos, mas nem tivemos tempo para pensar que o percurso inverso não nos servia, porque os nossos guias numa rápida conversa tinham decidido; um deles ia levar-nos à praia. para nosso espanto o mais novo voltou para a mota e o velho, o minúsculo e enrugado velho de oitenta anos, de chanatos, calções e uma t-shirt de alças ia-nos levar à praia. ainda a impossibilidade do empreendimento se mantinha como uma nuvem ao nível dos nossos olhos, já o total assombro causava pequenos puxões no nervo óptico. no momento não sabíamos, mas era o primeiro contacto de muitos com o fascinante e diferente mundo da velhice em terras nipónicas, e não só lá chegamos sem mais acidentes, como o velho fez toda a viagem à frente, dispensando a lanterna.depois mal descansou debaixo do abrigo e fez-se de novo à chuva, agora a subir, para ir ter com a mulher à casa onde tínhamos ido bater à porta a perguntar onde era a praia.

Apr 20, 2005

feeling it.


fotografia | josé manuel bacelar via hardlinerz


é difícil estabelecer o ponto de viragem, o momento em que a música electrónica deixa de ser um amontoado de sons rápidos e repetitivos, em que as pouca vozes que até ali soavam a lugares comuns de uma histeria colectiva qualquer, se transformam em frases plenas de sentido e colaboram na descoberta de uma nova dimensão naquele tipo de música. invariavelmente esse ponto de viragem está ligado ao momento mágico em que deixamos apenas de ouvir a música e a começamos a sentir no corpo, em que o nosso coração corre atrás das rápidas batidas e na caixa torácica ecoam os antes inaudíveis subgraves, o momento que sentimos o corpo fugir para uma dança da qual não tínhamos conhecimento.


advice: ouvir alto num bom sound system.

strange little girl.

one day you see a strange little girl look at you | one day you see a strange little girl feeling blue | she'd run to the town one day | leaving home and the country fair | just beware | when you're there | strange little girl | she didn't know how to live in a town that was rough | it didn't take long before she knew she had enough | walking home in her wrapped up world | she survived but she's feeling old | and she found all things cold | strange little girl | where are you going? | strange little girl | where are you going? | do you know where you could be going? | walking home in her wrapped up world | she survived but she's feeling old | cuz she found all things cold | strange little girl | where are you going? | do you know where you could be going


strange little girl | the stranglers

Apr 11, 2005

isolation.

mistaking devotion and love | surrendered to self-preservation | from others who care for themselves | a blindness that touches perfection | appears just like anything else | Isolation

joy division | isolation ( excerpt )

Apr 9, 2005

stupid daylight.

hoje foi o primeiro dia de sol deste verão antecipado em que pensei no outuno. o pouco vento que se fazia sentir na praia ombreava em estupidez com as ondas irritantes que vinham do mar embaladas pelo tédio dos cargueiros na linha do horizonte.

hoje apeteceu-me sentir os pés dentro de uns all star encharcados pela água da chuva.

Apr 1, 2005

as décadas do limbo.

não há melhor nome para a primeira década de um século do que "a primeira década do século" ? e a segunda, porque não se costuma dizer "anos 10"? depois não me resta qualquer dúvida, "anos 20", "anos 30" ...